[texto extraído do blog
REVIDE de Eduardo Araújo]
Começa bem, diverte depois vai entendiando e termina insuportavelmente como um filme moral.
Não aprecio cinebiografias, não esperava nada de Vladimir Brichta, que é
um ator incapaz de compor um personagem. Mas Bingo é o Bozo, e tinha
uma série de elementos interessantes da biografia do ator Arlindo
Barreto para acrescentar ao personagem, ao mesmo tempo que mostraria os
bastidores dos programas de tevê dos anos noventa, quando valia tudo
pela audiência. Mas a ideia de encenar a história de um palhaço
televisivo e de parcos recursos, se espalha por todos os aspectos do
filme. Então, o tom jogoso se espalha entre todos os personagem, todos
com máscaras, todos caricaturas, sem densidade, reiterando cacos/gags. A
mãe é uma diva, a ex-esposa é uma estrela caricata de novela de tevê, o
filho é o menino com bico, cheio de carências cobrando a presença do
pai, os donos de emissoras são burocratas visando lucro, o gringo
americano dono da marca Bingo é tão somente um gringo tolo e
manipulável, a diretora do programa é uma durona evangélica que não sede
as tentações. Todos cumpre esse papel sem curva. O ator que interpreta
Bingo era um canastração de pornochanchada, segue sendo um canastrão
politicamente incorreto até o final, sem evolução real que não seja a
conversão à igreja evangélica.
Há um fetiche de mostrar Vladimir Brichta de cueca, de flagra-lo
cheirando cocaina, trêbado e transando com uma galeria grande de vadias
que não tem nome, identidade etc. Seu comportamento errático e vicio é
contraposto ao pai amoroso que sempre foi, mas que ao virar o Bingo,
começa a faltar aos encontros com o filho, às festinhas de aniversário,
que o esqueça na porta da escola e que, por contrato, não deixa que
revele aos "amiguinhos" que ele é o homem por trás da máscara de
palhaço.
Bingo então perde a mão. Vira só um dramalhão vazio sobre um cara que
torra toda a grana em pó, desfila de cuecas e brada algumas obscenidades
fora do ar. Ter sucesso para ele é uma forma de vingança contra os que
não reconheceram seu "talento". Não há motivação, nenhum aspecto que
seja explorado para além do fato de estar decepcionando o filhinho
chorão.
Quando tudo desaba, perde a mãe e se fere dando porrada na tevê e caindo
drogado e bêgado, o desfecho só pode ser a conversão em cristão e
palestrante em igrejas evangélicas. Redimido, pode se casar com a
virginal balzaqueana produtora do programa. Perdido o papel de Bingo e
já distante da corrupção da fama e do dinheiro advindo da televisão, só
lhe resta tornar a ser um sem graça ex-ator pornô, ex-palhaço, ex-tudo.
As grandes emissoras passa a ser as vilãs, mas são vilãs sem rosto. Não
há um Silvio Santos na jogada, e os "diretores da Globo" são um Pedro
Bial que enfatiza a caricatura. A televisão que "suga o talento do
artista depois o descarta" (outro clichê), do qual sua mãe de Bingo
servirá de alegoria, já que ela fora uma "diva da tevê", que chegada no
ostracismo, morre ao perder um papel numa novela.
O que o filme faz é focar só o personagem, acompanhar sua trajetória,
mostrar como os anos 90 foram politicamente incorretos, com suas canções
de sentido sexual, com a vulgaridade das atrações, mas tudo conduzido -
mesmo nas cenas em que Bingo cheira cocaina - de forma acéptica.

Lá pela metade, quando o espectador percebe que não há mais nada a
contar/mostrar, que tudo será repetição sem ir ao fundo de nada, toda a
palhaçada perde a graça. A cenografia é de primeira, os atores são bons,
a fotografia bela, mas a direção linear não se empenha a ser cinema,
mas narrar ilustrando sem deixar lacuna, nada a se preencher ou apontar
para outros sentidos (como o jogo sujo que até hoje prevalece nas tevês,
a falta de ética, e o talento para buscar audiência nem que para isso
se sacrifique a inteligência). Sem inventividade nos planos e movimentos
de câmera, Bingo não se distingue de um programa competente, mas sem
brilho. Brichta segue sendo Brichta, o filme acabou e nada fica, a não
ser aquele discurso moral que aponta para o novo caminho da tevê e do
cinema: conquistar o público evangélico, resgatar valors cristão, a
moral, a família para que qualquer subversão possível seja tida como
pecado punível. A velha vida em preto e branco.
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