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6.11.15

(Conto): A CIDADE DA MULHER ABUTRE

A corrupção está na formação do povo brasileiro. Enxergamos apenas a ponta do iceberg. Reclamamos dos políticos e esquecemos os empresários. Reclamamos da indústria da multa, mas se paga o cafezinho do guarda. Baixar arquivo pirata, sonegação de impostos, furar filas, a lista é grande. É o jeitinho brasileiro para se dar bem. É um exagero generalizar? Claro. Em tempos de politicamente correto pior ainda. A corrupção está na raiz. 

Esta é a história de JANAÍNA SILVEIRA. Jovem enfermeira recém-formada. Os primeiros dias num hospital da cidade do Rio de Janeiro. Na emergência ela descobre o quanto o Sistema é precário e trabalha incansavelmente para que continue assim, alguém sempre se beneficia com isso. Uma reforma não concluída, remédios caríssimos que são extraviados, planos de saúde que financiam campanhas políticas em troca de novas leis.
Janaína percebe o Sistema. Aprende com ele. 
 

Hospital público do estado perto de uma comunidade gigante. A emergência não para. 

Num dia nem calmo nem estressante ao extremo, Janaína se vê fora do corpo quando presencia o seguinte: 

Entram pela porta da emergência causando um susto em todos, três jovens por volta dos 25 anos. Dois na ponta, armados com fuzis carregando o do meio baleado. Dois buracos grandes pelo corpo, jorrando sangue. Encontram uma maca vazia - sorte e raridade - e jogam o ferido sobre ela e saem gritando: 

- Não esquece dele! Não esquece dele, porra! 

Os dois traficantes somem mais rápido do que apareceram. 
Janaína está ali com o cara agonizando na frente dela com dois tiros do abdômen. Chegam o médico atraído pelos gritos de dor e mais dois enfermeiros e o segurança. 

- Quem trouxe ele? - pergunta o médico. 
- Bandidos - ela responde com medo. 
- Merda - ninguém fala mas todos ali pensam, menos a jovem enfermeira, ela não entende a gravidade de toda a situação. 

O médico rapidamente revista os bolsos e cintura do ferido. Não procurando por mais buracos de bala e sim o maldito dinheiro. Encontra e deixa no mesmo lugar escondido. Empurra a maca para dentro do corredor mais longe possível da entrada.

Dor. Agonia. Nada disso interessa. 

O médico pega o bolo de dinheiro do traficante entra numa sala puxando estupidamente Janaína pelo braço. 

- Como é o seu nome?
- J-Janaína. 
- Toma. 
- N-não, doutor. 
- Pega, cacete! Esconde na tua calça. 

Ela obedece.

- Depois a gente divide – ele diz.

Eles saem da sala compressa. Os dois enfermeiros e os seguranças esperam pelo pior e o pior entra bufando pela emergência: Dois Policiais Militares. Com fuzis ainda quentes do tiroteio. Correm até o moribundo sobre a maca.  

- Esse aí que é o bandido! - grita um deles. 
- É - responde o médico. 

Eles revistam o corpo. 

- Estou procurando pelas armas. 

Está porra nenhuma. 

- Vocês não viram nada? 
- Não. Chegou sem nada. 

O traficante ainda agonizando com um medo pior dos militares do que da própria morte. 

- Caralho, irmão! Vocês vão cuidar dele mesmo sem os parças deixarem nada? 
- Não deixaram. Quer revistar todo mundo – o médico enfrenta. 

Janaína gela. 

- Vamô embora! Vamô embora! 

Os dois saem apressadamente da mesma forma que entraram. 
Um alívio total no corredor até mesmo para o ferido. 
O médico puxa a enfermeira de volta para sala, os outros três também entram salivando de alegria. 

- Cadê? 

Ela tira o bolo de dinheiro da calça. O médico reparte por igual entre os cinco. Mais 10% para ele. 

- Se fosse na rua eles teriam pego. 
- Os bombeiros são os primeiros que fazem a rapa. Se sobrar algo aí é pra esses aí. 

Janaína nem presta atenção no papo entre eles. 

- E se ele tivesse me revistado? – ela pergunta ainda com o gelo derretendo pela espinha e indo direto para a bexiga.  
- Eles nunca revistam enfermeiras. 

Os quatro saem, ainda precisam cuidar do jovem traficante.

Janaína permanece ali com as mãos tremendo. Coloca o dinheiro no bolso e respira fundo. Quatro dias de trabalho na emergência e a criação de mais uma trabalhadora do Sistema.  A ficha realmente caiu e isso é só o começo. 
Hoje ela é uma enfermeira recém-formada. Ninguém imaginaria que 30 anos no futuro será a dona do Rio.

E terá um apelido carinhoso. 



(Gilberto Caetano)



...


10.10.15

(Conto): ASFIXIA

- Eu vou te contar uma coisa sobre a situação política dessa merda - diz Esdras. 
- Fala então, biduzão. 
- Você nunca me chamou de biduzão antes, amor. 
               
Ele beija a esposa na boca. Fernanda sorri rapidamente. 

-É o seguinte e é simples: só uma questão de tempo pra esquerda deixar de existir. Estão martelando os joelhos deles e uma hora cai. O país não precisa mudar. Se mudar quem se fode na história?
- A gente – Fernanda diz concordando com o marido.
- Sei não se o pior ainda está por vir - fala Jimi - intervenção pode ser uma possibilidade. 
- Estão até prendendo palhaços na rua - exclama chamando atenção para si Vera imponente e dona do apartamento onde os dois casais amigos estão jantando neste momento. 

Jantar sem muita firula, vinho, conversas e risos. Vera e Jimi estão casados há 10 anos. Altos e baixos. Hoje está tranquilo e controlado. Mesmo que não tentem mais ter filhos. Um filho na ponta do lápis é muita despesa. Aquilo que dizem que a única forma de enganar a morte é passando seu gene através da prole é balela. Jimi prefere do jeito que está. Vera não. 

- E você Fernanda, o que você acha? Não está meio salgada a comida? 
- Não. Pra mim está bom. Nunca comida uma comida rosa. O que é?  
- Adivinha. 
- Sei lá. 

Esdras coloca a colher com a comida rosa. Mastiga um pouco para sentir o gosto. Acha algo estranho sobre a gengiva. 

- Que foi? 
- Nada... Só... Espera...

Ele tira da boca um pelo. 

- Meu Deus! - grita Vera. 
- Não esquenta acontece. 
- Que vergonha. Nessa comida não tem nenhum bicho com pelo. 
- Não esquenta, Vera. Já foi. O que eu estava falando mesmo? 
- Sei lá.
- Eu perguntei o que é a comida e você pediu para adivinhar mas não consigo.
- Espera um pouco... – pede Esdras.  

Ele enfia novamente dois dedos na boca, entram mais desta vez e tira outro pelo de seis centímetros, preto e grosso. 

- O que está acontecendo, Vera?
- Eu não sei, Fernanda. Alguém mais encontrou alguma coisa dentro?
- Eu não – responde Jimi.  

Esdras engasga um pouco. 

- Bebê água, Esdras. 

Ele bebe. 

- Eu vou jogar a comida fora. 
- Acho que não é a comida não amor. 

Esdras tosse. Enfia três dedos na boca e tira mais pelos. Uma quantidade maior desta vez. 
Fernanda fica apavorada. Jimi e Vera ficam sem reação. 
Ele tosse, está engasgando. Fica vermelho. Fernanda enfia a mão na boca dele e tira mais pelos. 
Esdras engasga mesmo. Sufoca com o esôfago fechado. Ar nenhum entra. A garganta incha. Jimi corre para trás dele e o abraça com força para soltar o que está dentro dele. 

Esdras fica com a cabeça bem vermelha. Fernanda enfia novamente a mão na boca do marido e puxa o que está sufocando. Ela puxa até sair para fora da boca a cabeça de um roedor. 

Ela grita como num filme de Wes Craven e cai no chão se arrastando para a parede. 


O resto do corpo do bicho ainda está dentro da boca. 
Jimi puxa o bicho morto da boca do amigo e joga não chão. 
Vera está em estado de choque. 
Jimi paralisado. 
Esdras deitado no chão respirando com dificuldade. Deitado ao lado do roedor. 

- Já passou, já passou - diz Jimi. 

Fernanda depois de minutos respira fundo, alguém precisa ter a cabeça no lugar neste momento, pega o roedor molhado, gordo e morto e joga no lixo da cozinha. Volta para o marido, deita a cabeça dele em sua coxa e acaricia seus cabelos. 
Esdras finalmente consegue controlar a respiração. 

Vera depois que para de chorar, tosse, e da boca cai uma pena preta. 



(Gilberto Caetano)


...

4.10.15

(Conto): MULHER NEGRA DA PERIFERIA MALTRATA FILHOS DA CLASSE MÉDIA

Com um título como esse no caderno Cotidiano do jornal mais lido da cidade de São Paulo não teria como chamar a atenção de Rebeca Linhares Bitencourt. Ela tem dois filhos. Gustavo e Carolina. 9 e 7 respectivamente. Sua emprega que trabalha com a família há dez anos é negra, periférica e pega lotação para ir ao trabalho. 

- Rute!
- Senhora? - ela responde do quarto das crianças. 
- Vem aqui, Rute! 

Rute entra. 

- Olha o absurdo desta matéria aqui. 

Rute passa o olho sobre as letras e as fotos. 

- Mas quem está falando um negócio desse, madame? 
- Você leu a matéria? 
- Só passei o olho. 
- Estão dizendo que existe um complô contra a classe média. Olha o absurdo. 
- Eu não faço parte disso não. 
- Olha só o título da matéria, Rute. 
- Hum. 
- Você sabe ler? 
- Sei, madame. 
- Então leia. 
- "Mulher negra da periferia maltrata filhos da classe média".
- Absurdo! 
- De onde essa mulher é? 
- Lê a matéria, Rute. 

Rute obedece. 

- Éééé. Sei não. 
- Sabe não o que, Rute? 
- Éééé. Acho que essa se lascou. 
- Vai tomar um processo foda! Vai presa, essa vagabunda. 
- Vagabunda não, ela é trabalhadora, madame. 
- Você me entendeu. 

Rebeca respira fundo e solta a pergunta: 

- Você maltrata meus filhos, Rute? 

Rute respira fundo duas vezes e solta: 

- Se eu não tivesse educação, madame, eu mandaria a senhora à merda agora mesmo, pegaria minhas coisas e iria embora sem pensar duas vezes. Mas como eu tenho educação vou responder da seguinte maneira: Senhora Rebeca, trabalho para a senhoras antes do Guto e da Carol nascerem. Cuido deles deste sempre. A senhora já viu eu fazendo alguma coisa contra a integridade física deles? Não. A senhora já escutou alguma reclamação deles? Não. Como eu poderia fazer algo contra eles, se amo teus filhos como se fossem meus. Só porque eu sou negra e a mulher da notícia também é negra e mora na periferia não quer dizer que somos todas iguais. Eu nunca torturaria ninguém da classe média para não crescerem babacas. 

Rebeca engole seco a saliva. Desce difícil pela garganta. 

- Estou esperando um pedido de desculpas, madame. 
- Mil perdões, Rute. Eu sou uma idiota. 
- Ainda bem que a senhora reconhece. 
- Que eu sou uma idiota? 
- Não, madame, o erro da pergunta. 

Rebeca toma seu café rapidamente, levanta e abraça a empregada. 

- Adoro quando você me chama de madame, parece que tenho mais dinheiro do que realmente tenho. 

Ela beija Rute muito de leve no rosto, pega a bolsa, as chaves, diz: 

- Dá um beijo nas crianças por mim. 

E sai apressada para o escritório. 

Rute deixa as crianças dormirem até tarde, limpa os banheiros e liga para a colega Lurdes. 

- Alô, Lurdes? 
- Oi, quem é? 
- Você não viu ai no visor não? 
- Estou sem óculos, mas pela voz e pela grossura é a Rute. 
- Você leu o jornal hoje? 
- Tenho tempo não. 
- Descobriram o nosso esquema. 
- Qual deles? 
- Tortura e pressão sobre os menores. 
- Ixi. E agora? 
- A patroa me encostou no canto, me apertou, mas eu não disse nada. 
- A minha é tapada. Ela não lê nada de manhã. Ela só lê a bíblia antes de dormir e entende tudo errado. 
- Ótimo. Eu preciso que você ligue para algumas das meninas. 
- Agora? 
- Claro! 
- Tá bom. 
- Fala pra desmentir tudo. 
- Tá bom. 
- Eu vou lá ligar para as meninas do Rio. 
- Certo. 
- Segura aí é não faz nada com os pirralhos. 
- Sério? 
- Seríssimo. 
- Aaaah. O Fabinho jogou papel no chão e chamou uma menininha no playground de galinha. 
- Você planejou o que pra ele? 
- Só um afogamento básico e uns choques pra ele aprender. 
- Só alguns choques então. 
- Tá certo. Ah... Quem foi pega? 
- A Joana. 
- Joana? 
- A baixinha, gordinha, cabelo com luzes. 
- Ah, coitada. 
- Vou ver se consigo falar com ela pra dar um apoio moral. 
- Tá bom. Beleza. Preciso ir pra preparar o choque naquela semente do mal. 

Elas desligam simultaneamente os celulares. 
Rute respira um pouco, pensa, senta na cadeira. Olha de relance para a porta e as duas crianças estão paradas olhando para a mulher negra da periferia que corrige crianças deselegantes. 

- O que vocês estão fazendo acordados agora? 
- Desculpa - diz Guto com o queixo tremendo. 
- Sentem aí que eu vou preparar um café bem gostoso pra vocês. 

Os irmãos correm para sentar rapidamente. A garota primeiro depois ele. 

- Guto. 
- Senhora? 
- Você lembra o que teu pai te disse ontem? 

Ele não responde. 

- Lembra ou não lembra - Rute insiste - sobre a escola? 
- Ele disse que eu tenho que catar todas as meninas da escola. Até passar a mão na bunda delas de vez enquanto que elas gostam. 
- Você gosta, Carol? 
- Não sei. 
- Não. Você não gosta, Carol. 
- Eu não gosto – diz a menininha.  
- Dá um tapa na cara do teu irmão e diz pra ele respeitar as meninas, que o pai de vocês é um babaca. 

[plaft]

- Nosso pai é um babaca. Você vai respeitar as meninas. Você me ouviu? 

[plaft]

- Ouviu? 
- Ouvi - Guto fala baixo. 
- Ele ouviu, Rute. 
- Boa menina. Você vai ser o que quando crescer? 
- Secretária executiva igual minha mãe. 
- Dá um tapa bem forte na cara da tua irmã, Guto. 

O menino prepara a mão... 

- Não – Carol fala alto – Sócia da empresa. Eu vou batalhar pra ser sócia de uma empresa.

O menino desarma a mão frustrado. Depois repensa seu sentimento turvo e fica alegre por não machucar a irmãzinha. 

- Vocês sabem que eu amo vocês? 
- Sim. 
- Sim. 
- Vem cá. Me abracem forte que eu vou fazer um café bem gostoso pra vocês. 




(Gilberto Caetano)



...




29.11.13

(Conto): A FOICE AFIADA COMO O DIABO



O que ele está pensando agora trancando na cabine da bilheteria? CARLOS QUEM seria apenas um jovem entediado? Um único trabalho de quinta até domingo. O resto dos dias lendo, assistindo filme, deitado num marasmo de calmaria na casa que foi de seus pais. Apenas uma tentativa de relacionamento sério.

- Você não acha que nosso relacionamento deveria dar um passo adiante? - Carlos fala.
- Pra que? - ela responde.

Dias entediados, cada vez mais chatos, cada vez mais insuportáveis. Sexo casual não tem mais graça. Cerveja no boteco de rock, AC/DC no telão, os caras do Motoclube estacionando, muitas lésbicas desfilando de um lado para o outro e o dono do bar jogando pôquer online.

Casa. Trabalho. Bar. Casa. Bar. Casa. Trabalho. Motel. Casa. Casa. Casa. Bar. Casa. Bar. Trabalho. Casa. Trabalho. Casa. Bar. Casa. Casa. Casa. Livraria. Casa. Casa. Trabalho. Bar. Casa. Loja de ferragens.

- Bom dia – diz a atendente.
- Oi – responde Carlos.
- Posso ajudar?
- Tá crescendo um mato estranho no meu quintal.
- Isso aqui pode ajudar.
- O que é.
- É uma foice. Você não conhece uma foice?

Casa. Quintal. Carlos tira o mato facilmente. Apenas um fiapinho não sai, a foice está cega.
Casa. Loja de ferragens.

- Oi.
- Oi. Tá cega.
- O quê?
- A foice.
- Já?
- Já.
- Toma.
- Pra quê eu quero uma pedra?
- Pra amolar a foice?
- Como?
- Assim. 

A atendente amola a foice.
Carlos volta para casa com a pedra e a foice. Termina de limpar o quintal. Sente um cansaço natural de um tarde de sábado de trabalhos domésticos. Fica ali, sentado na antiga cadeira de balanço embaixo da árvore. A cadeira que era de sua avó. Observa atentamente a foice, sente o fio de corte ruim. Pega a pedra e a amola. A tarde passa rápido.
Algumas noites depois do trabalho, Carlos senta na cadeira e amola a foice mesmo sem precisa, uma garrafa de vinho gostoso e barato. Algumas vezes percebe que fica pensando na atendente.

Casa. Trabalho. Casa. Amolando a foice. Trabalho. Casa. Bar. Casa. Trabalho. Casa. Amolando a foice. Trabalho. Casa. Amolando a foice. Amolando a foice. Amolando a foice. Loja de ferragens.

- Como é o seu nome?
- Ágata. E o seu?
- Carlos.
- O que vai querer hoje.
- Chave de fenda.

A chave nunca foi usada.
O saco de parafuso também não.
A furadeira também não.

Carlos continua amolando a foice todos os dias. Pensando no rosto da Ágata e o instrumento cada vez mais afiado.

- Oi, Ágata.
- Oi, Carlos. O que você quer hoje?
- Você.
- Hã?
- Quero uma nova pedra para amolar.
- Você viu essa nova foice?
- Linda - ele diz olhando fixamente nos olhos dela. 
- Vai levar?
- A foice? - decepcionado continua - Vou.

Uma nova foice um pouco maior e brilhante. Carlos continua amolando, amolando, amolando as duas.

- O que você está precisando pra hoje, Carlos?
- Nada de especial. Eu trabalho na bilheteria de um teatro.
- Bacana.
- Você quer assistir uma peça?
- É caro? Teatro é caro.
- Eu te dou um bilhete. 
- Dois.
- Dois?
- Senão eu vou sozinha. Não gosto de ir sozinha ao cinema. Então também não vou ao teatro.
- Tudo bem. Amanhã eu passo aqui e te dou os ingressos.
- Por que você ficou assim?
- Assim como?
- Seu rosto mudou de repente. Está decepcionado com o que?
- Com nada. É que eu preciso ir.
- Eu vou com a minha prima. Quer dizer, eu vou chamar pra ir comigo. Se ela topar, eu vou. Tá vendo? Você mudou novamente. Está mais alegre. Você não sabe esconder o que sente, né?

Carlos vai embora com um sorriso do tamanho de sua nova foice. A cada hora que passa mais ansioso ele fica e mais amola as foices.
A campainha toca. A vizinha logo vai falando:

- Carlinhos, meu filho, toma cuidado que ontem foram assaltar o filho do Seu Josevaldo e deram um tiro nele. Graças a Deus ele não morreu. Mas foi quase. Cuidado meu filho.

Carlos Quem nunca foi medroso. Sempre chegou em casa de madrugada por causa do trabalho. Desde que seus pais morreram e lhe deixou o sobradinho, sempre morou sozinho, nenhum medo até ali. Se a rua esta sem segurança, ele sabe como se defender. Cada dia ele escolhe uma foice diferente para ir ao trabalho. No dia especial com o encontro de Ágata no teatro, Carlos pegou a mais sincera, bonita e atraente das foices, afiada até o talo.
Carlos entra na cabine da bilheteria. Hora: 16h.
Coloca a foice escondida embaixo do balcão. Ele pensa que pode acontecer algo apenas no caminho de volta para casa, e se conseguir a proeza de voltar com Ágata, nenhum vagabundo irá interromper esta noite.

16h30.
Os primeiros bilhetes vendidos.

- Sobre o que é essa peça? - pergunta uma jovem.
- Uma comédia sobre o nada.
- Dá quatro. Tudo meia.

17h30.
O tempo passa vagarosamente. Carlos poderia amolar sua querida foice para passa o tempo, pensa seriamente sobre isso.

18h23.
O movimento começa mesmo às 19h20.

19h01.
Um casal fica olhando por longos minutos para a fachada do teatro. Discutindo se vão assistir ou não a peça sobre o nada. Vão até a bilheteria ainda um com raiva do outro pela pequena briga.

- Duas inteiras? - pergunta Carlos.
- Sobre o que é essa peça mesmo? - também pergunta o marido?
- Sobre o nada.
- Que merda é essa? Tipo Seinfeld.
- Não sei.
- Você nunca viu Seinfeld?
- É obrigatório assistir?
- Pra você é.
- Eu só vendo o bilhete. É muito simples ou você quer assistir ou não quer assistir, ou você quer comprar duas inteiras ou meias. O que vai querer?
- Eu vou reclamar com o gerente.
- Calma, amor - diz a esposa.
- Cadê o gerente?
- Não tem gerente.
- Essa merda não tem gerente?
- Calma, amor.
- Tudo bem querida eu resolvo isso. Tem alguém aqui que pode me dar algum tipo de informação correta sobre essa merda de peça? Ou você é burro o suficiente pra isso também?

Carlos respira fundo. Passa a mão suavemente sobre a foice embaixo do balcão. Começa a fazer microplanos de como assassinar uma pessoa e conseguir fugir. Ali naquele ambiente é impossível, precisa de um lugar isolado.  Ele precisa arrumar um jeito deste mané entrar. Estripar uma pessoa não deve ser difícil.

- É uma peça sobre o nada. Sobre o cotidiano de um grupo de amigos que se encontram em uma balada, começam a beber cada vez mais o que aumenta as confusões e situações engraçadas. Só isso... Senhor. Uma ótima comédia para essa noite... Senhor.
- Aaaaahhh, dá duas inteiras. Vamos ver, vamos ver.

Carlos entrega as duas entradas.

19h40.
Finalmente elas chegam. Ágata e Camila.
Carlos entrega os dois convites totalmente encantado. Ágata fala baixo perto do ouvido dele.

- Você não consegue mentir mesmo.

Elas entram no teatro.

- Ágata? Ágata? Espera.

Carlos chama em vão.

20h05.
Os três toques. A peça começa. Carlos fica apenas com o som das risadas. Ágata aparece enquanto Carlos fecha a bilheteria.

- Por que você me disse aquilo? – ele pergunta.
- Você se apaixono pela minha prima.
- Claro que não. Isso é impossível.
- Já vi acontecer antes.
- Eu fique 3 meses pra criar coragem pra te chamar pra sair.
- Ela não é mais bonita que eu?
- Não sei.
- Qualé?
- Talvez. Ela é mais bonita. Você sabe disso. Esquece ela. Peraí... Se você se acha menor perto da sua prima, por que você deu o ingresso pra ela? Isso é algum tipo de teste?

A plateia gargalha. Realmente é uma boa peça sobre o nada.
O marido reclamão sai do teatro com cara amarrada e vai direto para o banheiro. A oportunidade perfeita Carlos pensa. O problema é fugir depois. Ágata ainda esta ali, parada falando sobre sua prima, algo como ela roubar seus namorados. Ágata aprendeu a testa-los, se passar da prova do primeiro encontro com a prima o cara está realmente interessado nela.

- É a primeira vez que eu penso em assassinato.
- Como assim?
- Hã? Oi? O que?
- Assassinato.
- Eu pensei em voz alta.

Eles ficam se olhando por algum tempo. Ágata esta mais curiosa do que assustada.
As risadas da plateia. A peça está na metade.

- Se eu te mostrar uma coisa você não sai correndo e nem grita ou qualquer outra reação estúpida?
- Estou preparada pra qualquer coisa.

Ele pega a foice debaixo do balcão.

- Estão assaltando a minha rua e essa é a única forma que eu tenho de me defender.
- Você traz a foice pro seu trabalho? - ela pergunta sorrindo.
- É no caminho pra casa que o bicho pega. Vai saber.
- Você tem coragem de matar alguém com isso?

O marido carrancudo e chato sai do banheiro e volta para o teatro.

- Esse cara. Ele me tirou de burro e o caralho. Só não sai do sério pra não perder o emprego. Mas só pensei.
- Só pensou, Carlos?
- Aqui seria impossível. Mesmo assim não teria coragem.
- E minha prima?

Uma saliva quase seca, quase como uma água ardente, desce pela garganta de Carlos Quem.

- Ela fodeu a minha vida inteira. Sempre fiquei em segundo plano na minha família por causa dela. Tudo pra ela sempre foi mais fácil. Tudo sempre sai do jeito que ela quer. Mimada. Egoísta. Odeio ela. Você tem alguma coisa pra beber em casa?
- Vinho. Talvez alguma vodca.
- Você mora sozinho?
- Eu e minha coleção de foices.
- Elas estão afiadas?
- Sempre afiadas. Afiadas como o se não precisasse de mais nada. Como se o mundo sofresse uma tempestade solar e elas fossem a nossa única chance de sobre viver.
- Entendi. Há a possibilidade de ir para a sua casa?
- Nós dois?
- Nós três.
- E as Bebidas?
- Pra criar coragem.
- Sexo?
- Só depois.

Gargalhadas da plateia. Fim da peça. Fim do trabalho. Casa. Vodca. Limão. Gelo. Risadas. Constrangimento. Foice. Sangue.

Ágata é estripada da virilha até a garganta. Fácil como um açougueiro tirando aquele pedaço de picanha para o churrasco de Domingo.
A prima Camila sempre consegue o que quer com um simples olhar e uma fala suave no pé do ouvido. 



(Gilberto Caetano)


...

20.5.13

(Conto): UMA LINDA GAROTA PEDINDO AJUDA PARA CURAR UM CORAÇÃO PARTIDO


- Oi.

- Oi.

- Não era você que estava desesperada ontem?

- Eu não. Minha irmã.

- Ah.

- Ela surtou.

- Ela sempre surta?

- Às vezes.

- Problemas psicológicos?

- Não sei. Ela recusa ir ao psicólogo.

- E você?

- Que que tem eu?

- Você surta?

- Às vezes. Mas eu fui no psicólogo.

- E?

- Segredo médico-paciente ele disse.

- Beleza.

- Você não está curioso porque minha irmã surtou ontem?

- Um pouco mas eu me seguro. Não sou muito curioso.

- É. Você nem perguntou o meu nome.

- O charme do mistério.

- Raquel.

- Oscar.

- Não. Raquel é o nome da minha irmã.

- E o seu?

- O que aconteceu com o charme do mistério?

- Pra te adicionar no facebook.

- Não tenho face. Nem minha irmã.

- Beleza.

- Oscar?

- Sim?

- Me faz um favor?

- Depende. Vai me custar dinheiro?

- Não.

- Vai me por em encrenca?

- Acho que não.

- Então manda.

- Minha irmã está sofrendo.

- Coitada.

- Preciso de alguma coisa pra ela ficar mais alegre.

- O que aconteceu com ela?

- Foi trocada por outra.

- Coitada. Vamos sair para beber.

- Não dá.

- Por que?

- Temos 11 anos. Ela tem 16. Nem ela pode beber.

- Mas ela pode roubar a bebida.

- Nunca bebi.

- Experimentei uma cerveja holandesa do meu pai.

- E?

- Amarga. E música? Uma festa?

- Ela é meio isolada. Não tem muitos amigos.

- Vamos para o Penhasco Gramado. Quando chegar meia-noite é só apontar a luneta para o leste e ver Vênus.

- Eu não tenho luneta.

- Eu tenho.

- Uau. Qual o planeta mais longe que você viu?

- Saturno.

- Uau.

- Mas foi como ver uma estrela, só a luz ou algo parecido. Não vi os anéis. Fiquei muito decepcionado.

- Coitadinho.

- Nem sei se o que eu vi era mesmo Saturno.

- Já pensou no tamanho do Universo.

- Impossível de pensar isso.

- Quantas Galáxias como a nossa existem?

- Bilhões de Galáxias.

- Bilhões? Caramba. Pensei que seriam umas cem no máximo.

- Não. Bilhões.

- E quantos Sistemas Solares?

- Trilhões. Eu acho.

- Que droga. Tudo tão grande, né? Um monte de zero numa lousa gigantesca e nós somos tão pequenos.

- Meu pai chama isso de insignificante. Os humanos são insignificantes. Se o planeta Terra quiser ele mata todo 
mundo como se a gente fosse barata. Ainda mais quando se tem 11 anos e aprontar alguma coisa.

- Teu pai bota o terror.

- É. Eu acho seu cabelo demais.

- Gosta?

- Lindo.

- Estilo Paula Lima. Minha mãe adora ela.

- Uau.

- Oscar?

- Sim.

- E se fosse eu? E se fosse o meu coração que tivesse quebrado? Você consertaria o meu coração?

- Faria de tudo pra ele não quebrar.

- Hum. Minha carona chegou. Te vejo amanhã?

- Na porta da tua classe. Vou pensar em mil ideias pra salvar a Raquel.

- Tchau.

- Tchau. Ah, mas você não me falou seu nome.

- Amanhã. Amanhã.



(Gilberto Caetano)


...    

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