- É. – diz TÁSSIA com um leve sorriso no canto da boca e continua – Eu preciso disso.
LÍGIA segura o rosto de Tássia, também sorri. Elas estão de frente ao banheiro, protegidas por uma parede, portanto, o resto das pessoas no bar não verão nada. Tentador. Uma garota qualquer lava as mãos e escuta tudo curiosamente. Lígia curte a brincadeira, a cerveja correndo em suas veias deixa a situação mais atraente. Plaft. Um tapinha bem leve, quase insignificante.
- Mais forte.
Lígia não perde tempo. Tapão forte. Tássia sai com a mão no rosto. Lígia fica parada, incrédula claro. Tássia está sozinha bebendo um spanka, numa mesa no conto do bar, Lígia senta-se a frente dela.
- Uma explicação, né?
- Por favor – pede Lígia.
- Tá bom. Você vem pra esse bar toda Quarta e Quinta. Eu te olho de longe, passo na tua frente, já esbarrei em você e aí? Nada. Você nunca me notou.
- Sinceramente eu só te vi agora no banheiro.
- Tá vendo? Minha nova tática funcionou.
- Se toda garota que você querer conhecer tiver que te dar um tapa você vai ter que andar com um analgésico na bolsa.
- Ah, não. Esquece. Só esse e foi desespero.
- Por que você acha que eu fico com garotas? Aqui não é um bar les.
- A dedeira.
- Minha dedeira? Como você viu?
- Você estava mexendo na sua bolsa e a dedeira caiu, você pegou rapidinho e guardou e ninguém percebeu. Seus amigos não sabem que você é, senão você não esconderia tão rápido. E uma hetero geralmente não tem uma dedeira.
- Quem é você? Tataraneta do Sherlock Holmes?
Tássia ri.
- Quando eu vi a dedeira para dois dedos, azul e com textura... me deixou molhada e só minha calcinha sabe quanto.
- Não sabia que eu excitava assim as mulheres ao meu redor.
- É que azul é minha cor favorita. Meu nome é Tássia.
- Lígia.
Elas apertam as mãos demoradamente.
Dali, entre elas, surge uma sincera amizade e naturalmente um namoro em um mês. Na primeira transa a dedeira azul está entre elas. Infelizmente, Tássia odeia a textura do objeto erótica, fica decepcionada no começo não conta para Lígia e põe fim ao relacionamento.
- Como assim? – pergunta Lígia indignada.
- Ah, enjoei da sua dedeira.
Lígia disposta a continuar o relacionamento usa uma dedeira diferente para um dia diferente da semana, sete dedeiras de cores e texturas diferentes. Tássia enjoa depois de um mês. Lígia, no auge do tesão, compra uma dedeira diferente para cada dia do mês. Elas transam todos os dias e naturalmente ela compra uma para cada dia do ano.
- Eu não aguento mais fazer sexo todos os dias!
- Tássia, meu amor, você me viciou.
- Chega, chega, chega.
- Tá bom, então, tchau – diz displicentemente Lígia deixando pra lá essa paixão que se vai tão rápido quando um orgasmo masculino. No final este pequeno romance de novela les foi apenas ridículo. Aquilo que para Lígia agora lhe dá prazer é colecionar dedeiras. 420. 653. Em pouco tempo: 1.505. Número renascentista. Um primeiro post num blog les sobre ela e sua coleção. Depois uma notinha num jornal. Uma grande matéria em uma revista comportamental. E o livro dos Recordes: Lígia é a maior colecionadora de dedeiras do mundo: 5.769. Fantástico, não?
Ofertas da Holanda para expor. Ela ganha uma boa grana. Em Londres, uma palestras para 63 mulheres sobre as dedeiras, o orgasmo solitário e a dificuldade entre o sexo oral feminino que no ápice do orgasmo ela gostaria de beija a boca da parceira mas a parceira está ocupada com a boca em seu clitóris. No Sudão durante uma passeata contra a castração do clitóris quase foi apedrejada.
Na volta ao Brasil, Tássia está a sua espera.
- Oi.
- Oi.
Estrategicamente Tássia a leva para assistir Anjos Exterminadores – de Jean-Claude Brisseau, não o clássico de Buñuel – em que um diretor investiga o orgasmo feminino filmando as atrizes se masturbando e transando entre elas. Mesmo com uma vontade filha da puta de ter suas vaginas acariciadas, na porta do cinema elas apenas conversam:
- Esse filme não te deixou com vontade?
- Bom, eu... hã...
- De tomar um café, Lígia.
- Ah. Rsrsrs. Prefiro vinho.
E elas vão para o mesmo bar onde tudo começou e ninguém sabe se irá se repetir.
Brasil, um país de boçais. Aconteceu na última terça.
Um homem forte, machista, preconceituoso ao extremo, que diz: “apenas homossexuais pegam AIDS”. Um absurdo dentro de um programa de grande audiência como o BBB.
E o povo o elegeu para ganhar 1,5 Milhão de reais. Incrível. Fantástico, não é?
É este tipo de homem que bate e mata a namorada ou esposa quando esta se apaixona por outro ou simplesmente se separa. É este tipo de homem que mata a filha como o Nardoni.
É o mesmo tipo de gente.
O Dourado, o grande vencedor, é o reflexo do povo brasileiro, é o espelho.
A primeira linha é sempre a mais difícil. Começo por onde? Começo a linha dizendo que meu nome é H. S. EDGAR. Por que? Por que eu quero, ué? A segunda linha diz: Onde eu estou? Estou em um quarto. Um quarto escuro, sentado em uma cadeira de balanço, que range cada vez mais alto. Este som bate nas paredes e ecoa. Por horas eu estou aqui, me pergunte “por que” e eu responderei que é a única opção, um quartinho nos fundos. O único móvel, uma cadeira. Dinheiro. Eu o resisti o quanto pude, mas ele fala baixo no meu ouvido: você precisa de mim, você precisa de mim. Está certo! Tudo bem, eu preciso, mas eu pintei todas as paredes que poderia pintar, todos os rodapés que encontrei. Não existem mais paredes que precisam de mim. Mas será que o único trabalho que posso fazer é pintar paredes? Foi isso que eu escolhi ou escolheram pra mim? Essa linha me confunde. Seria mais fácil se eu pensasse na 3ª pessoa e não na 1ª .
Aquele jovem negro chamado H. S. Edgar, não sabe fazer mais nada além de pintar paredes. Todas do pequeno cubículo em que dorme, já pintou 5 ou 6 vezes. As luzes estão apagadas agora (o leitor não pode vê-lo). Edgar está sentado em uma cadeira de balanço antiga, que faz um barulho irritante, os vizinhos já reclamaram antes, não tem nada para se fazer a não ser pensar. Só pode pensar em si, infelizmente não possui amigos. “É uma pena”. Ele repete muito essa frase sussurrando.
Mas aí ele se lembra de que neste pequeno cômodo que mora possui uma janela. Que fantástico! Há o que ele pode fazer, não importando o que irá encontrar do outro lado, será uma surpresa, uma nova perspectiva. Ele esbouça um sorriso. Levanta rápido da cadeira. Mesmo no escuro ele sabe onde ela fica.
Por que nunca pensei em abrir essa janela antes em dez dias que moro aqui? Essa linha vai ser a melhor de todas... eu posso ser a 1ª pessoa sempre!
Edgar abre a janela de uma vez. Seu sorriso acaba tão rápido quando percebe que não há luz, continua a escuridão. Ele põe a mão a frente para ver o que bloqueia a claridade. As pontas de seus dedos tocam uma fria e áspera parede.
Preciso terminar logo essa linha, há o que fazer... ele pensa.