Eu não vou mastigar as coisas para vocês. Tudo é simples, mais simples que um riff de duas notas. A língua passa rápido como cantar uma letra de duas páginas e isso é legal, é cool.
Tem que se saber o que está fazendo, precisa muito que ambos sejam sacanas. Inventar, coreografar. Não importa o sexo, homens, mulheres e afins, todos tem suas chances.
Para isso não importa o local, depende da cara-de-pau. É risco de vida. São germes e vírus se acumulando rapidamente na saliva.
Dedos são úteis, meu bem, escute o que eu lhe digo. Sem ou com plásticos em contato. Os movimentos, mãos, cabeça e quadril. O gosto salgado na língua. Quando o personagem vem, aproxima, vai com calma para reconhecer terreno e se empolga como um motor acelerando. Êxtase para o fim. Todos podem ter esta oportunidade.
Esta é uma história sem personagem, não, deixe-me corrigir, com personagens sem identidade, uma crônica que dura minutos, muito movimentada, com muita ação, uma mística boa de verdade. S.O. foi inventada para deixar as pessoas mais felizes.
PS.: E sem diálogos neste momento, por favor, até que tenha terminado.
Zeca Lanches. Ponto de encontro na hora do almoço. Faz algum tempo em que Curiati, Cintia e Gonzalo não se encontram para trocar idéias, é como se eles tivessem ficado de saco cheio um do outro por um tempo, das mesmas conversas e no final, como na estrutura de uma comédia - romântica - padrão na separação descobrem que não vivem separados, almoçam juntos novamente. Curiati come calabresa, Gonzalo um bife com fritas e Cintia um omelete. As coisas continuam as mesmas. Ah, Pernele chega depois, mas ela é quase irrelevante...
GONZALO: Ontem eu assisti Tudo Pode Dar Certo.
CURIATI: De quem é esse filme?
GONZALO: Woody Allen.
CURIATI: Assistiu um filme do Woody Allen, assistiu todos. Eu não sabia que você gostava dos filmes dele.
GONZALO: Eu não gosto muito mas minha mulher queria assistir e ela viu Vicky Cristina Barcelona e ficou me enchendo o saco pra alugar outros dele, tipo Match Point, Zeling¸ Manhatan, A Rosa Purpura do Cairo e Desconstruindo Harry. E aí eu tive que assistir todos esses. Mas é bacana os diálogos e tal. Relacionamento. Amor. Decepção. Os filmes de longe parecem todos iguais mas não é.
CINTIA: Tem um filme feito no Rio chamado Apenas O Fim que é bem parecido com os do Woody Allen. Cultura pop em profusão.
CURIATI: Esses filmes que falam demais eu não curto muito.
GONZALO: Você gosta do Tarantino!
CURIATI: Tarantino é um dos únicos caras que conduz a trama através do diálogo ao contrário do baixinho judeu que os personagens falam e falam e falam.
GONZALO: Eu gostei dele.
CINTIA: Ou você gosta, ou você odeia. Tipo Pearl Jam.
PERNELE: Eu assisti Quem Quer Ser Um Milionário...
CURIATI: Que mundo você vive?
PERNELE: Por que?
CURIATI: Todo mundo já assistiu esse filme.
PERNELE: Eu não posso estar atrasada?
CINTIA: Será que o Silvio Santos já sacaneou alguém no Show do Milhão dando a resposta errada?
Eles riem.
CURIATI: Eu já assisti todos os filmes do Danny Boyle.
GONZALO: Lá vem ele. Parabéns. Você é o único que já assistiu todos os filmes deste cara. Depois te dou uma privada pra você entrar nela.
CINTIA: Eu ainda estou comendo.
PERNELE: Por que privada?
CURIATI: A cena da privada em Trainspotting. Não conhece?
CINTIA: Eu estou comendo, Curiati!
CURIATI: Ewan McGregor é viciado em heroína e pra ele se desintoxicar ele toma uma pá de remédios e coloca dois supositórios e aí ele tem uma dor de barriga enquanto anda na rua e cai no pior banheiro da Escócia. Só tem este.
GONZALO: Sujo pra caralho.
CURIATI: Ele caga e esquece dos supositórios e entra na privada imunda...
PERNELE: Argh!
Cintia larga os talheres sobre o prato. Seu omelete ainda está na metade.
CURIATI: Ele entra literalmente na privada e nada até encontrar os supositórios como se fosse duas pérolas no fundo do oceano e quando volta para o banheiro, quando coloca a cabeça para fora da privada cospe a água.
GONZALO: Cena clássica.
CURIATI: Cena clássica. Por isso que o cinema foi inventado.
GONZALO: Não exagera.
PERNELE: Eu assisti também Anjo E Demônios e...
CINTIA: Eu acho que eu era a única no cinema que queria que a bomba explodisse. História besta do cacete. Queria meu ingresso de volta.
CURIATI: E por que foi então?
CINTIA: Na época eu fui pra assistir uma retrospectiva do Phillip Barcinski na Cinemateca mas já tinha acabado e eu fui pro cinema esperando assistir algo e só tinha isso, era melhor ter ficado em casa e visto o Sobrenatural no SbesTeira.
GONZALO: Eu achei o Barcinski um bundão pelo longa dele.
CINTIA: Os curtas dele são tão loucos, com uma narrativa incrível e ele faz um longa tão sem graça. Comunzinho.
GONZALO: Ele não teve culhão.
CINTIA: Eu não assisti ainda Os Famosos E Os Duendes Da Morte do Esmir Filho, espero não me decepcionar. Eu gosto dos curtas dele.
GONZALO: Só assisti Tapa Na Pantera.
PERNELE: O que é isso? Filme pornô?
CINTIA: Qual é, Pernele? Hit do youtube.
PERNELE: Desculpa se eu não conheço. Eu não tenho uma cultura de cinema...
CURIATI: Se fala cultura cinematográfica.
PERNELE: Cultura cinematográfica. Tudo bem. Eu não preciso ser tratada como uma idiota toda hora. E sabe que uma vez eu assisti um filme japonês que eu achei lindo.
CINTIA: Qual?
PERNELE: Ran. Você já viu Curiati?
CURIATI: Não.
PERNELE: Então você não tem uma cultura cinematográfica tão grande assim.
GONZALO: Esse é do Kurosawa. Pro Curiati quem é bom é o Michael Bay, Tarantino e Guy Ritchie.
CURIATI: Só porque eu falei uma vez que eu gosto do Bad Boys.
PERNELE: E quem é bom pra você?
GONZALO: Lars von Trier, Kubrick e Pasolini.
PERNELE: E pra você, Cintia?
CINTIA: Beto Brant, Laís Bodanzky e Fernando Meirelles.
PERNELE: Não conheço nenhum. Preciso pegar uns filmes emprestados com vocês.
Eles levantam para voltar ao trabalho.
GONZALO: Te empresto os filmes do Woody. Tem um monte lá em casa.
- É. – diz TÁSSIA com um leve sorriso no canto da boca e continua – Eu preciso disso.
LÍGIA segura o rosto de Tássia, também sorri. Elas estão de frente ao banheiro, protegidas por uma parede, portanto, o resto das pessoas no bar não verão nada. Tentador. Uma garota qualquer lava as mãos e escuta tudo curiosamente. Lígia curte a brincadeira, a cerveja correndo em suas veias deixa a situação mais atraente. Plaft. Um tapinha bem leve, quase insignificante.
- Mais forte.
Lígia não perde tempo. Tapão forte. Tássia sai com a mão no rosto. Lígia fica parada, incrédula claro. Tássia está sozinha bebendo um spanka, numa mesa no conto do bar, Lígia senta-se a frente dela.
- Uma explicação, né?
- Por favor – pede Lígia.
- Tá bom. Você vem pra esse bar toda Quarta e Quinta. Eu te olho de longe, passo na tua frente, já esbarrei em você e aí? Nada. Você nunca me notou.
- Sinceramente eu só te vi agora no banheiro.
- Tá vendo? Minha nova tática funcionou.
- Se toda garota que você querer conhecer tiver que te dar um tapa você vai ter que andar com um analgésico na bolsa.
- Ah, não. Esquece. Só esse e foi desespero.
- Por que você acha que eu fico com garotas? Aqui não é um bar les.
- A dedeira.
- Minha dedeira? Como você viu?
- Você estava mexendo na sua bolsa e a dedeira caiu, você pegou rapidinho e guardou e ninguém percebeu. Seus amigos não sabem que você é, senão você não esconderia tão rápido. E uma hetero geralmente não tem uma dedeira.
- Quem é você? Tataraneta do Sherlock Holmes?
Tássia ri.
- Quando eu vi a dedeira para dois dedos, azul e com textura... me deixou molhada e só minha calcinha sabe quanto.
- Não sabia que eu excitava assim as mulheres ao meu redor.
- É que azul é minha cor favorita. Meu nome é Tássia.
- Lígia.
Elas apertam as mãos demoradamente.
Dali, entre elas, surge uma sincera amizade e naturalmente um namoro em um mês. Na primeira transa a dedeira azul está entre elas. Infelizmente, Tássia odeia a textura do objeto erótica, fica decepcionada no começo não conta para Lígia e põe fim ao relacionamento.
- Como assim? – pergunta Lígia indignada.
- Ah, enjoei da sua dedeira.
Lígia disposta a continuar o relacionamento usa uma dedeira diferente para um dia diferente da semana, sete dedeiras de cores e texturas diferentes. Tássia enjoa depois de um mês. Lígia, no auge do tesão, compra uma dedeira diferente para cada dia do mês. Elas transam todos os dias e naturalmente ela compra uma para cada dia do ano.
- Eu não aguento mais fazer sexo todos os dias!
- Tássia, meu amor, você me viciou.
- Chega, chega, chega.
- Tá bom, então, tchau – diz displicentemente Lígia deixando pra lá essa paixão que se vai tão rápido quando um orgasmo masculino. No final este pequeno romance de novela les foi apenas ridículo. Aquilo que para Lígia agora lhe dá prazer é colecionar dedeiras. 420. 653. Em pouco tempo: 1.505. Número renascentista. Um primeiro post num blog les sobre ela e sua coleção. Depois uma notinha num jornal. Uma grande matéria em uma revista comportamental. E o livro dos Recordes: Lígia é a maior colecionadora de dedeiras do mundo: 5.769. Fantástico, não?
Ofertas da Holanda para expor. Ela ganha uma boa grana. Em Londres, uma palestras para 63 mulheres sobre as dedeiras, o orgasmo solitário e a dificuldade entre o sexo oral feminino que no ápice do orgasmo ela gostaria de beija a boca da parceira mas a parceira está ocupada com a boca em seu clitóris. No Sudão durante uma passeata contra a castração do clitóris quase foi apedrejada.
Na volta ao Brasil, Tássia está a sua espera.
- Oi.
- Oi.
Estrategicamente Tássia a leva para assistir Anjos Exterminadores – de Jean-Claude Brisseau, não o clássico de Buñuel – em que um diretor investiga o orgasmo feminino filmando as atrizes se masturbando e transando entre elas. Mesmo com uma vontade filha da puta de ter suas vaginas acariciadas, na porta do cinema elas apenas conversam:
- Esse filme não te deixou com vontade?
- Bom, eu... hã...
- De tomar um café, Lígia.
- Ah. Rsrsrs. Prefiro vinho.
E elas vão para o mesmo bar onde tudo começou e ninguém sabe se irá se repetir.
Brasil, um país de boçais. Aconteceu na última terça.
Um homem forte, machista, preconceituoso ao extremo, que diz: “apenas homossexuais pegam AIDS”. Um absurdo dentro de um programa de grande audiência como o BBB.
E o povo o elegeu para ganhar 1,5 Milhão de reais. Incrível. Fantástico, não é?
É este tipo de homem que bate e mata a namorada ou esposa quando esta se apaixona por outro ou simplesmente se separa. É este tipo de homem que mata a filha como o Nardoni.
É o mesmo tipo de gente.
O Dourado, o grande vencedor, é o reflexo do povo brasileiro, é o espelho.